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O Xadrez de Elesbão Veloso: Como as Eleições Estaduais Desenharam Três Décadas de Poder Local

Quem observa o cenário político de Elesbão Veloso hoje, sob a atual gestão de Ronaldo Barbosa — que assumiu em 2025 o seu quinto mandato à frente do município —, talvez não imagine que o desenho das forças locais começou a ser traçado há mais de trinta anos. Longe de ser apenas um rito burocrático, as eleições para deputado estadual sempre funcionaram na cidade como um verdadeiro "termômetro de sobrevivência" e um ensaio geral para as disputas municipais.

Nota Metodológica: Para entender a real evolução e a força das lideranças locais ao longo das últimas décadas, esta análise cruza a votação nominal dos candidatos com o eleitorado total apto a votar em cada respectivo ano, e não apenas com o número de eleitores que compareceram às urnas. Isso permite medir a capacidade dos grupos políticos de mobilizar a totalidade do município, independentemente dos índices históricos de abstenção.

Histórico de Votações e Evolução do Eleitorado (1994 - 2022)

  • 1994 – 11.961 eleitores – 1.549 votos (12,95%) para Xavier Neto (Dezinho/Ronaldo) / 2.282 votos (19,07%) para Wilson Brandão (Rosa Moura)

  • 1998 – 13.094 eleitores – 2.013 votos (15,37%) para Marcelo Coelho (Oposição/Ronaldo) / 1.841 votos (14,06%) para Wilson Martins (Situação/Rosa Moura)

  • 2002 – 11.627 eleitores – 3.264 votos (28,07%) para Marcelo Coelho (Prefeito Ronaldo) / 842 votos (7,24%) para Wilson Martins (Rosa Moura) / 723 votos (6,21%) para Xavier Neto (Tufy Holanda)

  • 2006 – 12.360 eleitores – 3.554 votos (28,75%) para Marcelo Coelho (Prefeito Ronaldo) / 684 votos (5,53%) para Lilian Martins (Rosa Moura) / 667 votos (5,40%) para Xavier Neto (Tufy Holanda)

  • 2010 – 12.426 eleitores – 2.539 votos (20,43%) para João Madison (Ronaldo na Oposição) / 2.091 votos (16,83%) para Lilian Martins (Prefeito Dezinho/Rosa Moura)

  • 2014 – 12.799 eleitores – 3.047 votos (23,81%) para João Madison (Prefeito Ronaldo)

  • 2018 – 12.257 eleitores – 3.461 votos (28,24%) para Júlio Arcoverde (Prefeito Ronaldo)

  • 2022 – 12.703 eleitores – 2.580 votos (20,31%) para João Madison (Gestão Rafael Barbosa)

1994–1998: Queda, Derrota e a Virada Histórica

O ponto de partida dessa cronologia nos leva a 1994. Na época, Ronaldo Barbosa ocupava a cadeira de Secretário de Administração no mandato do então prefeito Manoel da Silva Moura, o Dr. Dezinho Moura. Juntos, os dois governistas testaram sua força nas urnas apoiando Xavier Neto para a Assembleia Legislativa, obtendo 1.549 votos (12,95% do eleitorado total).

No entanto, a oposição liderada por Rosa Moura mostrou suas garras de forma unificada naquele ano. Ao canalizar expressivos 2.282 votos (19,07% do total de eleitores aptos) para Wilson Brandão, Rosa demonstrou a força de sua base. O resultado foi o prenúncio do que viria em 1996: em uma disputa direta e acirrada pelas chaves do município, Rosa Moura derrotou Ronaldo Barbosa nas urnas, assumindo o comando do Palácio Municipal.

Mas o xadrez político dá voltas rápidas. Longe de se dar por vencido após a derrota de 96, Ronaldo Barbosa usou o pleito estadual de 1998 para dar o troco político. Os papéis se inverteram de forma cirúrgica: Rosa Moura era a prefeita e apoiava Wilson Martins; Ronaldo, agora na oposição, encampou a candidatura de Marcelo Coelho.

Num embate memorável, mesmo sem a estrutura do município, Ronaldo conseguiu mobilizar as bases e bateu o candidato da prefeita por uma diferença apertada: 2.013 votos (15,37% do eleitorado total) contra 1.841 (14,06%) de Wilson Martins. Essa emblemática vitória na oposição em 1998 foi o combustível e o teste de fogo que pavimentou, enfim, a eleição de Ronaldo Barbosa para o seu primeiro mandato de prefeito no ano 2000.

O "Efeito Cadeira" e a Fragmentação das Oposições

Com a caneta na mão, Ronaldo Barbosa transformou o apoio aos deputados estaduais em uma demonstração de força expressiva. Os dados mostram que o "teto" do grupo se consolidava sempre que Ronaldo estava exercendo o mandato de prefeito durante as eleições gerais.

Nas eleições de 2002 e 2006, durante seu primeiro e segundo mandato, o grupo entregou votações expressivas para Marcelo Coelho. O impacto do grupo no poder na eleição de 2002 foi tão avassalador que pulverizou as forças adversárias na cidade. Naquele ano, enquanto Ronaldo garantia 3.264 votos (28,07%) para Marcelo Coelho, a oposição tradicional viu a votação de Wilson Martins murchar para apenas 842 votos (7,24%), mesmo este contando com o apoio direto da ex-prefeita Rosa Moura. Para completar o cenário desfavorável aos opositores, uma terceira via liderada por Tufy Holanda conseguiu canalizar outros 723 votos (6,21%) para Xavier Neto.

O topo absoluto do grupo veio logo em seguida, em 2006, com 3.554 votos (28,75% do eleitorado total) para Marcelo Coelho. Naquele ano, a divisão das forças contrárias ficou ainda mais evidente no município: a ex-prefeita Rosa Moura coordenou o apoio para Lilian Martins, que obteve apenas 684 votos (5,53%), enquanto o grupo de Tufy Holanda manteve o apoio a Xavier Neto, registrando 667 votos (5,40%). Essa persistentemente fragmentação consolidou o favoritismo absoluto e a hegemonia do grupo governista.

Esse fenômeno de força máxima voltou a se repetir anos mais tarde. Após retornar à prefeitura, Ronaldo Barbosa viu o grupo atingir novamente o topo em 2018. Naquele ano, no auge de seu quarto mandato como prefeito, a máquina garantiu 3.461 votos para Júlio Arcoverde (28,24% do eleitorado total).

Rompimentos e Resiliência: O Piso Histórico de 20%

Se os momentos de "cadeira" mostram a força máxima do grupo, os períodos de crise e transição revelam a existência de um eleitorado fiel, que funciona como um escudo político para as lideranças.

O ano de 2010 testou esse limite de forma dramática. Após apoiar a eleição de Dezinho Moura em 2008 para sucedê-lo, houve um severo rompimento político entre as duas lideranças. Em 2010, Ronaldo estava na oposição municipal, enfrentando o grupo que ele mesmo ajudara a eleger, o qual uniu forças com a tradicional rival Rosa Moura. Juntos, o prefeito Dezinho e Rosa concentraram o apoio da máquina e da oposição histórica em Lilian Martins, que obteve 2.091 votos (16,83% do eleitorado total).

Mesmo sem a estrutura da prefeitura e enfrentando essa poderosa coalizão, o candidato apoiado por Ronaldo Barbosa, João Madison, venceu o embate local ao registrar 2.539 votos (20,43% do eleitorado total). Embora tenha sido uma queda em relação aos recordes de 2006, o número provou a existência de um "piso" sólido de um quinto de todo o eleitorado local fiel a Ronaldo, capaz de superar o grupo do prefeito em exercício.

O cenário de resiliência se repetiu em 2022. Na ocasião, o município era governado por seu sobrinho, Rafael Barbosa (que comandou o executivo de 2021 a 2024), marcando um momento de transição de liderança no grupo. Novamente apoiando João Madison, o grupo obteve 2.580 votos (20,31% do total de eleitores aptos). Os números idênticos aos de 2010 (na casa dos 20%) mostraram a estabilidade dessa base de apoio mesmo em momentos de transição de poder.

O Returno do Líder e a Estabilidade Demográfica

Um dos dados mais curiosos da história eleitoral de Elesbão Veloso é a estabilidade do seu colégio eleitoral. Enquanto muitas cidades do interior sofreram oscilações demográficas severas, Elesbão mantém-se praticamente na mesma marca de eleitores aptos há quase 30 anos: em 1998, registrava seu pico com 13.094 eleitores; em 2022, o número era de 12.703 eleitores.

Essa estabilidade faz com que a variação de votos dependa quase que exclusivamente da capacidade de articulação e do peso das lideranças locais. Sabendo disso, após o intervalo da gestão de Rafael Barbosa, Ronaldo Barbosa colocou seu nome novamente à prova em 2024, vencendo o pleito com 53,12% dos votos válidos e reassumindo o comando direto do município em 2025.

Dos bastidores de 1994 como secretário, passando pelo revés de 1996 e chegando ao protagonismo consolidado em cinco mandatos de prefeito, a trajetória de Ronaldo Barbosa em Elesbão Veloso deixa uma lição clara: no interior, quem souber ler os sinais e dominar o xadrez das eleições estaduais dificilmente perderá o rumo do Palácio Municipal.

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